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Mostrando postagens com o rótulo cinema

Ninguém sofre mais do que eu

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Contém moderados spoilers de A Verdadeira Dor (2024) Dualidade, nuance e conflitos internos nem sempre são fáceis de trabalhar no cinema. Livros podem gastar páginas e páginas presos dentro da mente de um personagem, assim como a gente passa boa parte do tempo na vida real. Pensamentos que acompanhamos no nosso ritmo, com a nossa voz dentro da cabeça, sempre puxando o texto para nossas experiências pessoais. Já um filme tem geralmente entre 90 e 150 minutos para contar uma história - incluindo trama, motivações e mensagens. É muito difícil se aprofundar nos conflitos de uma pessoa no meio da corredeira rápida que é a narrativa de um longa-metragem. A história precisaria investir pesado no desenvolvimento de personagem ou ficar 10 minutos com a cena parada nos olhos do protagonista enquanto ele narra o que está pensando. Eu queria que fizessem um filme assim, só pelo inusitado. Essa limitação transformou cineastas em mestres dos símbolos e significados. Um ângulo de câmera, uma expressã...

Escapismo nem sempre é sobre escapar

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Acho que este texto vai ser curtinho. E acho que não tem spoilers demais além da premissa do filme Ghostlight . Eu só acho, tá? Tô começando a escrever agora. Provavelmente não vou revisar pra voltar aqui e consertar. É o meu incrível nível de profissionalismo. Mas vem comigo. Sempre me incomodou como o termo escapismo é pejorativo. A gente podia ficar um bom tempo aqui discutindo o motivo e chegar à conclusão óbvia: vem dessa ideia terrível de que tudo que a gente faz tem que ter um objetivo prático ou um sentido literal. E fugir disso é perder tempo. Mas isso é conversa pra outra hora. Por agora, o que eu queria falar é como o filme Ghostlight mostra que escapismo é muito mais do que ignorar algo que incomoda. É processar aquilo que parece impossível de ser processado logicamente. Tomara que eu consiga não escapar do escopo. Hã, hã. O escapismo em Ghostlight Ghostlight é um filme de 2024, escrito e dirigido por Kelly O’Sullivan, que conta a história de uma família despedaçada. Quando...

O filme Parachute e os clichês de neurodivergência

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Isso pode parecer um choque para você, mas Hollywood não é exatamente uma referência em retratar a neurodivergência. Por isso que, quando alguém faz diferente, mesmo com uns problemas, ele se destaca tanto para mim. Eu fico, nossa, fizeram o básico. Que coisa, né? E é a aparente preocupação maior ao retratar esse tipo de situação como foco narrativo que eleva ainda mais o excelente Parachute, escrito e dirigido por Brittany Snow – aquela mesma que cantava no The Bellas com a Anna Kendrick. Logo depois que o filme terminou, fiquei pensando em como poderia explicar o que mais me cativou nele – além, claro, de atuações muito boas e um roteiro bem amarradinho. Mas só conseguir pensar em falar sobre Parachute listando todos os clichês de transtornos mentais que vejo retratados no cinema e como isso é estranho para quem realmente convive com esse tipo realidade.  Eu entendi o que Parachute foi para mim analisando o que ele não é. Baseando em alguns lugares-comuns tão presentes que resolv...

As mesmas pessoas em todos os lugares ao mesmo tempo

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Esses dias eu estava zapeando a TV quando peguei Goonies bem no inicinho. Naquela parte que eles ainda estão na casa, sabe, quando entramos na bagunça divertida que é aquele grupo de amigos. Fazia muito tempo que não assistia, com certeza bem antes de ver Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo . Muito antes de ver a atuação maravilhosa do Ke Huy Quan e tudo que ele falou sobre sua experiência na indústria do cinema. Quando o Data entrou em cena, eu abri um sorriso imediatamente. Foi como aquelas correntes de dia das crianças em que você vê como já foram as pessoas que sempre conheceu adultas. Era apenas um moleque se divertindo fazendo um filme, mas… tudo o que vi de atuação de Ke Huy Quan hoje já estava ali de alguma forma. Claro, era crua, inocente, sem tanta técnica. Ao mesmo tempo, com os mesmos trejeitos, os mesmos olhares. A mesma pessoa. Essa constatação me deixou um tanto pensativo na hora. E o incômodo persistiu um tempo depois. Será que a gente não muda tanto assim por mais que ...

Pequenos atos de insurreição

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Eu sou um fã de longa data de Star Wars, de quando o nome ainda era Guerra nas Estrelas. Como muita gente na minha idade, me interessei pela franquia com o frenesi da trilogia I, II e III, para depois ir atrás e me apaixonar pelos filmes originais. O que é contraditório para mim, sim. A estrutura básica de jornada do herói, com um escolhido resolvendo o problema da galáxia, é um tropo que já falei por aqui que não gosto muito. Porém, Star Wars tem uma proposta um pouco mais consistente, que só vi de novo com o mesmo entusiasmo em Jogos Vorazes (me coloco no direito de não elaborar a comparação). A ideia de que o tiro de Luke na Estrela da Morte tenha sido o golpe fatal de uma luta há muito tempo iniciada , travada por milhares, talvez milhões de pessoas é incrível. E ela se perdem BASTANTE nos últimos anos. Tornando a imaginação opaca Infelizmente, embora eu goste muito de acompanhar tudo desse mundo, os novos conteúdos de Star Wars que assisti diluíram constantemente o brilho dos epi...

Um medo maior do que a morte

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ATENÇÃO: Contém spoilers de Pinóquio de Guillermo del Toro (2022) Se até uns anos atrás você me perguntasse qual é o meu maior medo eu responderia imediatamente: eu tenho um medo descabido da morte. De acordar para ir no banheiro no meio da noite e ter um momento intenso de desespero completo ao contemplar a ideia, até que eu consiga afastá-la pensando em algo mais tranquilo, tipo tudo o que eu tenho que fazer que vai me gerar ansiedade nos próximos dias. Mas o que mudou desses alguns anos para cá? Na verdade, meu medo da morte continua o mesmo. Imenso e impossível de lidar, por isso só empurro ele para frente. O que aconteceu foi que um medo ainda maior e totalmente abstrato assumiu a liderança. Vamos entrar nesse vespeiro na minha cabeça, vai ser divertido. Morrer é fichinha perto de não morrer Há algum tempo, quando eu já me contentava de que o medo da morte seria meu nêmesis até o fim da vida, eu me deparei com um desses vídeos que simula a evolução do universo nos próximos bilhões...