Preguiça de morrer

Foto de uma TV ligada em um quarto escuro com os pés de alguém assistindo

Do que você tem mais preguiça? Aquela coisa que faz qualquer ação que seu corpo precise fazer abjeta, ofensiva, contra todos os seus princípios?

A maior preguiça dele era morrer. Quando pensava em morrer, cansava de pensar. Era uma reação involuntária e extenuante. Uma esteira sem controles pra mente, que começava a correr e não parava. Com medo de cair, continuava até a exaustão.

Pois é, era muita preguiça de morrer. Nesse nível, assim. Quando o menor dos fragmentos de ideia soprava, o menor dos pós abrigando o menor dos ácaros, era o suficiente para uma torrente de eventos hipotéticos projetados.

Pensava em toda a comoção em volta de seu corpo. Dependeria bastante da situação em que morresse. Quem o encontraria se morresse sozinho? Quem estaria ao seu lado se partisse repentino? Quem se despediria se fosse esperado?

Nenhum cenário era animador. Se a pessoa fosse muito emocionada, seria uma choradeira, uma gritaria. Imagina o clima que ia ficar. Se fosse uma pessoa mais contida, podia ficar aquele silêncio constrangedor. Será que todo silêncio entre uma pessoa morta e uma viva é constrangedor?

Só essa reflexão já dava uma baita preguiça e ainda estaria no começo da jornada. Imaginava o trabalho que dava para os paramédicos, a confusão no trânsito que a ambulância causaria. Por que ir com a sirene ligada se já estava morto? Deve ser protocolo, mas nunca tinha tempo para pensar nisso.

Afinal, nem sabia se iria de ambulância. Talvez morresse no hospital. Mas e a conta, quem paga? E todas aquelas refeições e o banheiro frio e tudo mais? Imagina se tivesse dividindo quarto com alguém? Imagina o transtorno na vida de quem divide quarto e a pessoa morre? Era capaz até de estragar o dia da médica. Aniversário de casamento, pronta para levar o marido e os filhos no restaurante e agora ter que lidar com isso.

E é claro que não acaba aí. Nem de perto! Preparação do corpo, transporte, funerária. Maquiagem, troca de roupa, uma papelada sem fim. Quem viria no funeral? Alguém vem de outra cidade? Não costuma dar tempo.

Pensava em como são rígidos esses eventos. Tem hora certinha pra tudo. E se alguém atrasasse? Nossa, e se ele atrasasse? A culpa seria do serviço, mas olha a confusão que isso causa. Até pra quem vem depois, no horário das 3:30. Já dá preguiça morrer, imagina ter que esperar depois de morto.

Falando em esperar, tentava imaginar a situação de ficar ali deitado um tempão. É educado receber todo mundo, claro, mas e se tiver gente demais? Ficar deitado muito tempo também cansa.

Depois de tanta coisa, é a hora que o processo inteiro acaba e você vai lá pro seu repouso final. Mas olha só todo o caminho. Morrer leva dias! Vale a pena passar por isso pra só depois descansar? Ele já considerava descansar o suficiente dormindo sete horas por dia.

Certa vez contou de tudo isso pra uma pessoa próxima. A primeira pergunta foi: mas você já vai estar morto, que diferença faz? Sim, até faz sentido, mas pensa. É seu corpo fazendo tudo. Não por vontade própria, não por locomoção própria, mas… É, preferiu nunca mais contar para ninguém.

Só que segurar piora o sentimento. Só de pensar em morrer ele já quase morria de tédio! Era um sentimento tão forte que, quando a hora finalmente chegou, não conseguiu deixar de notar que fazia uns 18 graus e estava nublado. Ele sabia que precisava morrer, mas essas coisas podem ficar para depois, né? Em vez disso, preferiu se acomodar bem no sofá, com uma manta fina nas pernas e abrir a Netflix. Era dia perfeito para maratonar alguma série.

Isso já faz um bom tempo, mas ele continua lá. Sempre que lembra que é hora de morrer, ele pensa: só mais um episódio. A Morte, cansada de esperar em pé, teve que alugar o apartamento ao lado. Bem conservado, mas valia uma reforma na cozinha. Ela pensa em concorrer a síndica ano que vem.




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